27.11.07
Debates Incompletos
Reacendeu-se, nos mais variados meios da Comunicação Social, com certa surpresa, acrescente-se, o debate sobre a Religião e a Ciência.
Há quase cem anos, ainda o público leitor se excitava imenso com este tipo de questões, abertamente discutidos, por exemplo, por Bertrand Russel, matemático e filósofo, notável livre-pensador, que chegou a conhecer a prisão, em consequência da exposição pública das suas ideias. Suspeito que hoje muito menos gente se preocupará com tal assunto, atitude que começa perigosamente a generalizar-se a muitas outras áreas do pensamento.
Daí a força actual do Futebol e de certo tipo de diversões ou passatempos acentuadamente alienantes, justamente porque conduzem o espírito humano para zonas de profunda esterilidade ou inutilidade, quando não de consequências absolutamente nocivas, pela prática de violência gratuita que lhes está associada.
As esferas próprias de cada um destes magnos temas – Ciência e Religião – encontram-se, de há muito, razoavelmente delimitadas.
Desde o Concílio Vaticano II, realizado no início dos anos 60 do século passado, sob a égide de um Papa reformador, como João XXIII, considerado até bastante progressista pelo numeroso grupo de intelectuais marxistas e terminado já com o Papa, menos progressista, Paulo VI, mas, ainda assim, sem o rótulo de reaccionário, que posteriormente haveria de ser abundantemente utilizado com João Paulo II, sobretudo a propósito de temas de índole moral, e de novo com o actual Papa, Bento XVI, ex-Cardeal Ratzinger, tido como guardião da pureza da Fé, embora sem dispor do braço secular, outrora disponibilizado pelo Poder, para punir eventuais heresias, facto só possível pelo conluio activo da hierarquia da Igreja com o Poder laico, não esqueçamos o pormenor.
Pese a antiga função do Cardeal Ratzinger, Bento XVI goza de eminente reputação intelectual, manejando com a competência de universitário erudito, que ele inequivocamente é, toda a base teológica da doutrina cristã.
Causou algum furor a sua comunicação lida na Conferência de Ratisbona, ao reavivar uma discordância ocorrida num diálogo entre um ilustrado imperador bizantino com um persa erudito sobre o Cristianismo e o Islão e a verdade dos dois credos, nos anos distantes do final do século XIV, ainda na Idade Média.
Vimos, pela exuberância da reacção muçulmana, como estes interlocutores ainda se acham, culturalmente, demasiado próximos da mentalidade intolerante desse tempo.
Estranhamente, o debate que se reacende sobre as relações da Religião com a Ciência ignora este facto fundamental que é o da impossibilidade prática de ele se processar com o Islão, que, para o bem ou para o mal, já se instalou na Europa, por vezes com propósitos pouco convivenciais, tal a força com que explodem as suas indignações sobre os mais variados assuntos que, supostamente, belisquem ou tratem com menor dignidade a sua delicada sensibilidade religiosa e cultural.
Vejo, com espanto, que sempre os nossos mais ousados cientistas escolhem como alvo, para exercer a sua afronta, o Cristianismo, em particular a Igreja Católica, apontada como herdeira de tudo o que de infame se passou em séculos anteriores, nas suas relações com a Ciência e com os cientistas, em geral. Logo vêm à baila os casos de John Huss, Giordano Bruno, Galileu, etc., sendo o caso do pisano sempre muito citado, como quase-mártir da suposta imaculada Ciência.
Contam-se, no entanto, pelos dedos, os casos em que estes bravos cientistas ou denodados intelectuais polivalentes ousam tocar, ao de leve que seja, nos dogmas teológicos e nas restrições à liberdade de expressão de pensamento e de comportamento do Islão.
Todo o seu ímpeto argumentativo se concentra na crítica à Igreja Católica, quando desde pelo menos o Vaticano II, esta adoptou, como Instituição, um diálogo respeitoso com a Ciência e a chamada sociedade civil, em geral, aceitando, cada vez com maior naturalidade, a diferente especificidade de cada área do conhecimento, defendendo, sem impor a ninguém, a sua Doutrina e normas morais de comportamento dela decorrentes.
Ninguém hoje pode alegar perseguição ou cerceamento da sua liberdade por qualquer instância da hierarquia da Igreja Católica, que se vê frequentemente desrespeitada, desacatada e até insultada, no seu múnus privado, sem que dela haja partido qualquer acto censório ou reprobatório que merecesse justificada reacção. Eis o que me espanta, quanto à acção destes ditos espíritos ousados da moderna intelectualidade ocidental.
Quando, ao fim de largas controvérsias, se atingiu um clima de mútuo respeito e de franco convívio entre a Igreja Católica, a Ciência e a Cultura ocidentais, eis que regressam estes assanhados pensadores a investir contra os seus moinhos de vento imaginados como espessas fortalezas do mais negro obscurantismo.
O espectro deste encontra-se, hoje, alhures, noutras correntes religiosas, que cresceram rapidamente sobre o vazio espiritual suscitado, primeiro pelo militante materialismo, predominantemente de raiz marxista, depois pelo hedonismo exacerbado, reforçado pelo frio cinismo egoísta e pelo nihilismo sofisticado, tudo isto naturalmente desembocando num caldo cultural propício à multiplicação das seitas de todo o tipo, das crendices, às bruxarias e demais fantasias que sucessivamente se ramificam, num crescendo estarrecedor.
Atente-se, todavia, que este fenómeno só parece afligir o Ocidente evoluído e requintado, permanecendo-lhe grandemente imune o mundo do Islão, dir-se-ia expectante, mas preparando-se para a sua acometida final, alimentando um visível desejo de vingança.
Periodicamente lá nos vêm recordar a sua malfadada derrota na Reconquista Cristã da Península Ibérica e o perdido domínio islâmico otomano que, por vários séculos, se espalhou pelos Balcãs, detido, in extremis, por duas vezes, às portas da elegante Viena.
Por que motivo não assistimos a nenhuma confrontação de tipo ideológico entre o vanguardismo científico-filosófico ocidental e o mundo muçulmano, que se vai entre nós progressivamente expandindo, sem revelar aquisição cultural significativa do novo meio em que se encontra ?
Por que motivo, no Ocidente, se critica tanto o Cristianismo e nunca ou rara e timoratamente se questionam os dogmas ou as práticas de vida impostas pelo Islão, no Ocidente, por enquanto, apenas aos seus seguidores, mas nos países muçulmanos indistintamente a todos os cidadãos ?
Onde está então a coragem intelectual e cívica destes ilustres pensadores ocidentais, que se esgotam a criticar a Igreja Católica, instituição que hoje não tem praticamente nenhum poder no plano secular, guardando tão-somente alguma influência cultural remanescente nas sociedades modernas, ao mesmo tempo que demonstram um silêncio atemorizado em relação a outras crenças muito menos abertas e muito menos tolerantes, como, por exemplo, o Islão e algumas novas seitas de cariz alegadamente demiúrgico, catastrofista ou de puro charlatanismo, ainda que encoberto pela capa do direito à sua suposta prática religiosa ?
Conviria certamente ouvir os insignes cientistas e intelectuais do chamado Ocidente a respeito destas comezinhas questões.
AV_Lisboa, 26 de Novembro de 2007
Comments:
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Caro António Viriato
Tem toda a razão. Mas não se pode discutir com fanáticos detentores exclusivos da verdade. Não vale a pena. O que se passa hoje com o Islão aconteceu no passado com o Cristianismo.
Porque as religiões são mesmo assim: meiguinhas e tolerantes quando são fracas e de pau na mão quando são fortes.
Se queres conhecer o vilão...
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Tem toda a razão. Mas não se pode discutir com fanáticos detentores exclusivos da verdade. Não vale a pena. O que se passa hoje com o Islão aconteceu no passado com o Cristianismo.
Porque as religiões são mesmo assim: meiguinhas e tolerantes quando são fracas e de pau na mão quando são fortes.
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